Direito Hoje | Edição nº 71
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O culto[1]

São Miguel das Missões, 1726

 

14 de julho de 2026

Marcel Citro de Azevedo

 Marcel Citro de Azevedo 

Juiz Federal Substituto, Doutor (2021) em Direito pela UFRGS, Professor de Direito Tributário da ESMAFE-RS e da Pós-Graduação em Direito Tributário da PUCRS/IET, autor do livro Sujeição passiva na tributação dos grupos societários (Thomson Reuters/RT, 2021), de um ensaio sobre filosofia reencarnacionista (As vidas sucessivas, Matrioska, 2024), de um romance urbano contemporâneo (2020 não foi um ano ruim, Zouk, 2024), de um livro de contos (Travessia, vencedor do Prêmio Açorianos de Criação Literária em 2010) e de um romance histórico sobre a formação do Rio Grande do Sul (Outonos de fogo, Libretos, indicado para o Açorianos 2012 e vencedor do prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores na categoria narrativa longa em 2013)

imagem de fundo

 

Incontáveis foram as horas dedicadas ao estudo e ao exercício desse idioma indígena. Ao copiar e recopiar manuscritos de catecismos ou sermonários, os catequistas introduziam modificações e novos vocábulos, dicionarizando a língua guarani, agora devidamente reduzida à gramática.

Eduardo Neumann – Letra de índios[2]

 

Francisco Ribera acordou antes do sino e ficou deitado ouvindo o campo. Havia aprendido a fazer isso nos primeiros anos – escutar o que a reducción postulava antes de começar a pensar nas tarefas do dia – e nunca deixara o hábito, mesmo quando o que ouvia era apenas o vento subindo do Rio Uruguai e o mugido distante do gado nas pastagens em volta. Às vezes ouvia mais. Naquela manhã escutou o silêncio particular que antecede uma visita mais temida do que desejada: os cães quietos, os passos das primeiras mulheres no pátio mais rápidos do que de costume, um mau presságio talvez.

Alonso de Valdehorno chegou com o sol ainda baixo.

Ribera o esperava na frente das fundações da nova igreja, com as mãos cruzadas sobre o hábito, no lugar exato onde esperava qualquer visitante – dos humildes aos soberbos. Conhecia Alonso de Valdehorno de dois ou três encontros em Asunción – um homem que caminhava como quem inspeciona, o olhar sempre um passo à frente dos pés, catalogando. Tinham mais ou menos a mesma idade, mas Alonso parecia mais velho de uma forma que não era física: era a idade de quem há muito decidiu o que o mundo significa e parou de se surpreender com ele.

— Irmão Ribera — saudou Alonso, apeando sem ajuda, com a eficiência de quem não quer dever nada a ninguém.

— Vossa Reverência — Ribera fez uma pequena inclinação. — Agosto é cruel para viagens, vou mandar servir a comida.

— Estou com vontade de trabalho — respondeu Alonso, e lançando um olhar irônico para seu interlocutor — E essa indumentária inusitada? Você está parecendo um pajé velho.

Ribera lembrou-se de que deveria ter retirado o colar do pescoço, presente do velho Arandú, e talvez vestido uma batina menos castigada. Perguntou-se o que o mestre Loyola diria em seu lugar e, na falta de uma resposta, ficou calado. Dois índios levaram o cavalo e as mulas. Alonso olhou para os andaimes da futura torre – a construção que interrompia a linha do horizonte ocidental do pátio como uma costela exposta – e ficou parado por um momento que Ribera soube ler: não era admiração, era avaliação.

— O Padre Primoli enviou os projetos revisados?

— Chegaram em março — disse Ribera. — Começamos a pedra grês em abril. No ritmo atual, a nave estará conclusa em quatro ou cinco anos.

Alonso acenou com a cabeça e entrou. Ribera ficou um instante ali fora antes de segui-lo.

 

 

Sebastián Vega estava na escola quando os dois homens passaram pela janela de caminho ao refeitório, e Ribera parou, como parava quase toda manhã, para olhar um momento sem ser visto. O rapaz estava de costas para a janela, desenhando no chão de terra batida com um graveto, e os meninos guaranis em volta – oito, dez anos, os olhos muito abertos – acompanhavam o traçado com a atenção que crianças dão às coisas que ainda não entendem, mas intuem que são importantes. Sebastián desenhava o mapa do céu. Ensinava constelações, que em guarani tinham outros nomes e outras histórias, e ele tinha o cuidado – que Ribera notara desde o primeiro mês – de perguntar os nomes guaranis antes de dar os latinos, como quem prefere entrar pela porta que já existe a arrombar uma nova.

Apresentou-o ao visitador. Conversaram por alguns instantes, até o recém-chegado recolher-se para descansar um pouco. Ribera voltou à escola, sob o pretexto de apanhar alguns papéis, e ficou escutando as lições de Sebastián a seus jovens alunos.

Seis meses. Em seis meses o rapaz aprendera o suficiente do guarani para fazer perguntas simples e compreender respostas lentas, supervisara a reparação do aqueduto que abastecia as lavouras do lado norte, organizara o inventário das ferramentas das oficinas com uma precisão que o anterior responsável nunca alcançara, e conquistara, sem aparente esforço, a afeição das crianças e a desconfiança respeitosa dos homens mais velhos – que é, pensava Ribera, a melhor combinação possível para quem chega novo a um lugar antigo.

Que Deus o conserve assim, pensou Ribera, e foi ao refeitório.

 

 

O jantar com Alonso foi uma negociação disfarçada de conversa.

Alonso almejava saber sobre as práticas noturnas. Havia recebido alguns relatos – não especificou de quem – sobre cantos em guarani antigo nas casas depois do toque de recolher, sobre o uso de ervas em rituais que não eram os da botica da missão, sobre a persistência de um pajé que, apesar de batizado há quinze anos, ainda era consultado por algumas famílias em assuntos que deveriam pertencer ao confessor. Queria saber, especialmente, se em São Miguel, assim como acontecia nas missões do lado ocidental do Uruguai, os indígenas mais idosos também insistiam para que se enterrassem as cinzas de pajés e caciques em solo sagrado, dentro da nave.

Ribera ouviu tudo com o rosto de quem ouve um relato sobre uma guerra distante. Meneou a cabeça para ambos os lados, enquanto os servia de água fresca.

— A conversão é um processo — disse, enfim. — Não um evento isolado. Vossa Reverência sabe isso melhor do que eu.

— É um processo que pode ser apressado ou negligenciado — cortou Alonso. — Nosso bispo já advertiu que a negligência, muitas vezes, usa a paciência pastoral como disfarce.

Sebastián, sentado a uma ponta da mesa, comia em silêncio com aquela atenção de jovem que ainda acredita que os mais velhos estão resolvendo algo enquanto debatem. Ribera olhou para ele um instante – a tez clara já castanha do sol do campo, as mãos calejadas de seis meses de trabalho manual – e sentiu o peso familiar de quem carrega dois mundos sem poder largar nenhum.

— Amanhã mostrarei a Vossa Reverência os registros de batismo e confissão — disse Ribera, com uma cordialidade que era também um encerramento. — São Miguel tem números que a Província pode apresentar com orgulho.

Alonso acenou. Não estava satisfeito, mas mostrou-se disposto a esperar. Era esse, Ribera sabia, o tipo mais imprevisível de homem: o que tem paciência para colher o que planta.

 

 

Naquela noite, depois de dedicar-se a um dos exercícios contemplativos ensinados pelo mestre Loyola, Ribera saiu para caminhar pelo pátio como fazia quando precisava pensar sem o peso de um teto a ocultar-lhe o infinito. O céu de agosto sobre o planalto era uma violência de estrelas – em vinte anos nunca se acostumara à quantidade de céu que havia naquele lugar, como se a missão tivesse sido construída no ponto exato onde a Terra admite sua pequenez.

Do lado sul do pátio, no cotiguaçu, havia uma luz acesa. Não era hora de luz, ali.

Ribera olhou por um momento, depois desviou o olhar para os andaimes da futura torre, negros contra o azul escuro da noite. As fundações iam fundo. Ele sabia, porque estivera presente quando começaram a escavar, que a dois metros de profundidade os trabalhadores tinham encontrado cinzas e ossos que o mestre de obras dissera serem antigos – muito anteriores à reducción. Ribera mandara retirá-los, benzer o solo e continuar. Os homens mais velhos da missão não tinham dito nada.

Nem precisavam.

Voltou para o quarto, acendeu a vela e abriu o diário. Escreveu a data, o nome completo de Alonso, o número de dias que a visita deveria durar. Ficou com a pena parada sobre o papel por um tempo que não mediu.

Depois fechou o diário sem escrever mais nada e apagou a vela.

 

 

No cotiguaçu, as velas seguiam acesas.

Tupã Porã não havia dormido. Mymba estava atravessado no catre, os pés encostados nas suas coxas, e ela ficara deitada de costas, olhando para o teto de palha onde o vento fazia pequenas ondas. Seu filho dormia com a boca aberta, repetindo no sonho as sílabas soltas que juntava durante o dia para tentar fazer palavras – ela ouvia o ma, o am, o saindo mornos e ritmados, e percebeu que mesmo no sono ele estava aprendendo a falar.

No catre ao lado, o menino Kereí arfava.

Não era o barulho comum de criança dormindo. Era um arfar de dentro, como se o ar encontrasse resistência antes de chegar aos pulmões. Tupã Porã conhecia aquele som. Sabia-o da mesma forma que sabia quando a chuva ia cair antes de o céu escurecer – não por raciocínio, mas por algo que antecedia o raciocínio, que morava num lugar do corpo que não tinha nome em latim ou espanhol.

Kereí tinha seis anos. Antes da lua cheia, os perderia por inteiro.

A mãe de Kereí dormia no catre seguinte, os braços envoltos na filha mais nova, também febril. Tupã Porã ficou olhando para ela por um tempo, até levantar-se. Pegou o pote de água e bebeu de pé, perto da janela. Lá fora, o pátio da missão estava vazio e a torre era uma sombra recortada contra a luminescência estelar, os andaimes como costelas de algum animal grande que havia morrido ali e estava sendo consumido por dentro.

Tupã Porã estava presente quando os trabalhadores encontraram as cinzas enterradas. Vira os homens mais velhos ficarem em silêncio. Ela também ficara – mas seu silêncio era diferente, um silêncio repleto de vozes ancestrais.

Mymba se mexeu no catre e murmurou algo que ela não entendeu. Ela foi até ele, ajeitou a coberta, ficou com a mão na testa do filho por alguns instantes. A febre permanecia baixa. Ela voltou para a janela.

Seu pai costumava dizer que as visões não eram uma dádiva. Dizia que dádiva é o que se recebe sem pedir, e que as visões chegavam antes mesmo de ela pedir qualquer coisa – antes mesmo de ela entender que existia uma diferença entre o que todo mundo enxergava e o que só ela via. Quando tinha seis anos, disse ao pai que havia duas mulheres em pé na beira do riacho com um vestido cor de lodo, onde ele via apenas um vulto fugidio. Naquele momento, o velho pajé Arandú soube que a filha havia herdado dons ainda maiores que os seus, e sentiu ao mesmo tempo orgulho e pesar, como se ela tivesse se adonado de um punhal antes que fosse crescida o suficiente para não se machucar.

Arandú ensinara o silêncio como se ensinava a manejar uma lâmina: com paciência e com medo. “Não digas o que vês, porque o que se fala em voz alta pertence a todos, e o que pertence a todos não te protege mais.” O prestígio do pai havia minguado com os anos – não porque ele perdeu o dom, Tupã Porã sabia disso, mas porque ele optara por silenciá-lo tão bem que se tornara invisível. “Estamos melhor aqui do que na mata” — dissera em uma das reuniões do Cabildo — “melhor dois jesuítas bem-intencionados do que um punhado de encomenderos para nos escravizar”.

Um pajé que se cala, porém, é como um fogo frio: ainda existe, mas não acalenta ou protege a comunidade.

Tupã não queria repetir o erro do pai. Quando o marido foi atingido no ventre pelo chifre de um touro bravio, implorou que Arandú usasse a medicina antiga, o chocalho sagrado mbaraka e o sopro cerimonial do cachimbo petyngua, mas ele cedeu aos unguentos e sangrias dos padres. Em cinco dias, Mymba tornou-se órfão de pai.

Ainda não sabia bem qual era o equívoco de Arandú, mas sentia, com a mesma certeza com que sabia que Kereí não chegaria à lua cheia, que havia mais de um.

 

 

Mymba acordou às cinco da manhã com a palavra nova que estava tentando dizer desde a véspera.

— Mamã.

— Mamã — ela repetiu, e sentou-o no colo.

Ele cheirava a sono quente e a terra. Ficou passando a mão no cabelo dele enquanto ele olhava para a janela com os olhos ainda meio fechados, tentando entender o que era o dia. Depois apontou para o catre de Kereí.

— Ele — disse.

— Ele — confirmou ela.

— ...dorme — disse Mymba, satisfeito consigo mesmo.

— Dorme — ela sorriu.

Ficaram assim por alguns minutos, mãe e filho olhando para o menino que arfava, enquanto o cotiguaçu acordava devagar ao redor deles – o cheiro de fumaça das primeiras fogueiras, o sino do amanhecer que o padre tocava do outro lado do pátio, os passos de quem ia buscar água. Tupã Porã pensou no padre velho que chegara no dia anterior, o espanhol de olhos inventariantes que a fizera abaixar a cabeça quando passara por ela no pátio.

Pensou também em Francisco Ribera. Sabia, simplesmente sabia, que ele havia parado na noite anterior em frente ao cotiguaçu e notado a luz de sua vela.

Alguns padres ela havia aprendido a ler como se lê o tempo – pela pressão do ar, pela cor do céu, antes de precisar olhar diretamente. Ribera era desses. Havia nele uma zona de escuta que os outros padres não tinham. Não era simpatia, não era fraqueza – era algo mais parecido com honestidade, a honestidade de quem admite que não sabe tudo que precisaria saber para ser quem é.

O sino começou a dobrar. Mymba escorregou do colo dela, foi até o catre de Kereí e ficou de pé olhando o menino dormir, como se estivesse se despedindo.

— Ele — disse Mymba.

— Sim — disse Tupã Porã. — Ele.

 

 

Kereí morreu na madrugada do terceiro dia, um pouco antes de a lua cheia emergir entre as nuvens pesadas.

Sebastián estivera com ele até então, trocando compressas de vinagre diluído, administrando o chá de guiné que o enfermeiro da missão, Tomás, havia preparado segundo os herbolários que os padres mantinham na botica – angico para os pulmões, carova para a febre, uma infusão de folhas de araçá que Tomás usava quando nada mais funcionava e que desta vez também não funcionou. Sebastián rezou sobre o menino em espanhol, em latim e nas poucas palavras de guarani que sabia, como se algum anjo do Senhor, naquelas paragens, talvez entendesse melhor uma língua do que outras.

Quando a respiração de Kereí parou, o rapaz ficou sentado ao lado do catre por um tempo que Ribera, que chegara logo depois, não soube calcular – havia no rosto de Sebastián a expressão inespecífica de quem encontrou pela primeira vez a distância entre a medida da fé e a medida da realidade. Ribera encomendou a alma, cobriu o corpo e mandou avisar a mãe. Não havia mais o que fazer, de forma que ambos foram atender as coisas urgentes que a missão requeria, para seus vivos e para seus mortos.

Na segunda semana, foram quatro óbitos, todos de crianças. Na terceira, oito – e dois adultos, ambos velhos, com os pulmões já gastos de outras doenças que os antigos pajés não conseguiram curar. Tomás percorria os pavilhões de habitação com a sua caixa de ervas e os seus registros escritos em espanhol, numa letra miúda e aplicada que revelava o quanto havia custado aprendê-la, e voltava à botica de noite com o rosto de quem está somando uma conta cujo resultado não fecha. Alonso acompanhou as primeiras visitas com a solenidade de inspetor, fazendo perguntas sobre os tratamentos, consultando os seus próprios remédios trazidos de Buenos Aires. Quando o terceiro adulto morreu, um jovem pastor de boa complexão física, ele parou de acompanhar os doentes e se apressou a inventariar as pastagens e os campos de erva-mate, mais distantes da missão.

São Miguel continuava funcionando porque as missões não paravam. As oficinas trabalhavam, a lavoura era irrigada, o sino tocava nos horários de sempre, as crianças que não estavam doentes iam à escola onde Sebastián ensinava com um empenho levemente excessivo, como se pudesse compensar com mais aulas o que não conseguira compensar com mais rezas. Os guaranis mais velhos não faziam perguntas em voz alta. Faziam-nas com os olhos, e Ribera aprendera havia muito a ler esse idioma mudo – era mais honesto do que qualquer outro que conhecia.

 

 

Sebastián acordou com febre alta na manhã de uma quinta-feira de agosto. Ribera soube antes de entrar no quarto – havia no corredor do alojamento dos padres um silêncio diferente do silêncio habitual, mais denso, de mau augúrio.

Empurrou a porta devagar, o rapaz estava no catre com os olhos abertos, demasiadamente abertos, fixos num ponto indistinto no teto. Ribera aproximou-se e se abaixou para ouvir o som soprado pelos lábios sibilantes:

...et cum spiritu tuo... Dominus vobiscum... et cum spiritu...

Não era bem uma oração, era mais memória vocal, o latim saindo da boca sem passar pela consciência, como a ladainha decorada das velhas matronas de sua terra natal. A testa do rapaz estava seca e quente. Ribera pôs a mão nela e Sebastián não reagiu, continuou no seu latim de ninguém, et cum spiritu tuo, Dominus vobiscum, girando em torno das mesmas palavras.

Ribera puxou a cadeira e sentou. Inclinou a cabeça e juntou as mãos. Começou a rezar – o Pai-Nosso primeiro, porque o Pai-Nosso era o começo de tudo, a oração que antecedia todas as outras como a fundação antecede as paredes. Rezou devagar, palavra por palavra, mas quando chegou ao fiat voluntas tua parou.

Ficou com aquelas três palavras engasgadas na boca, seja feita a Tua vontade. Ele havia repetido a frase dez mil vezes em trinta e tantos anos de vida religiosa, dos dois lados do mar oceano, sem hesitar. E nunca hesitara porque a fé que o animava não era a confiança ingênua de quem nunca enterrou ninguém, era uma fé forjada a ferro e a fogo que sobrevivera justamente porque sabia dobrar sem quebrar, como os bambuzais ao vento. Mas agora a frase ficou sibilando na boca como uma campana rachada.

Seja feita a Tua vontade – e se a vontade fosse essa? E se a vontade fosse Sebastián definhando no catre, com vinte e três anos e febre, repetindo o latim da missa como um eco de si mesmo, enquanto lá fora os guaranis faziam com os olhos a pergunta que Ribera conhecia de cor?

Conhecia-a porque já a fizera. Não em voz alta, nunca em voz alta – mas havia noites, nos primeiros anos, em que a missão perdia mais do que aguentava, quando as epidemias vinham em série e os enterros se acumulavam no adro, quando os bandeirantes se aproximavam pelo Norte e os encomenderos chegavam perto demais das margens do rio, e a comunidade inteira olhava para ele aguardando uma proteção – ou uma evocação – que os padres não tinham como dar.

Se Deus não salva os pastores, por que salvaria as ovelhas? Por que salvaria os guaranis, se sequer salva os seus?

Os seus. Sebastián era dos seus – não só da Companhia, mas dos seus especificamente, daquele afeto particular que Ribera permitia a si mesmo sentir por raríssimas pessoas e que não era dominicano, beneditino ou jesuíta. Se Sebastián morresse, Alonso convocaria luto oficial. E no luto, nos rostos dos guaranis reunidos no pátio, a pergunta estaria escrita com uma clareza que nenhuma homilia conseguiria apagar. Ribera havia passado trinta anos construindo algo – não só os sete povos de pedra naquela banda oriental, mas uma outra missão que não aparecia nos relatórios de Buenos Aires ou de Asunción.

Uma fissura naquela missão pessoal, que também era uma crença e uma profissão de fé, poderia alastrar-se feito fogo ao vento, coxilhas acima.

...et cum spiritu tuo...

Sebastián voltou com a ladainha, os olhos estáticos. A febre não baixava.

Ribera ficou sentado, as mãos juntas sobre os joelhos, olhando para o rosto do rapaz. Terminou o Pai-Nosso de onde havia parado, passou para a Ave-Maria, depois para o Credo – rezou o Credo inteiro em latim com a voz baixa, palavra por palavra, duas, três, quatro vezes, e só parou quando Arandú bateu à porta e entrou, parando no meio do quarto.

Olhou para Sebastián no catre. Depois, para Ribera. Não foi preciso falar nada. Puxou o banco de madeira que ficava encostado na parede, e ficaram os três em silêncio por um tempo – o rapaz também suspendeu seu latim febril, a fronte coberta de suor.

— Tive uma visão esta noite — disse Arandú, finalmente. — Vi meu neto no rio. Não no nosso Uruguai — acrescentou, com a precisão de quem sabe que os detalhes são a diferença entre uma visão e um sonho — mas no rio inferior que de vez em quando me surge. Ele estava parado, com água pelo pescoço, e havia alguém na outra margem que eu não vi o rosto. O menino queria atravessar, mas algo o segurava.

Ribera olhou para Sebastián. A respiração era regular, mas rápida.

— O que o segurava?

— Talvez um chamado. Talvez esperava que alguém o chamasse de volta.

O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Ribera conhecia esse tipo de silêncio desde que começara a conviver com os guaranis, era o que precedia uma revelação, por vezes um pedido velado.

— Esse alguém não estava na margem oposta. Estava em uma outra, na terceira margem do rio, se é que consigo me fazer entender. E é por isso que preciso fazer a cerimônia — disse Arandú. — Para meu neto e para as demais crianças. As doentes e as ainda sadias. Tenho comigo os artefatos, ainda me lembro dos cânticos.

— Não.

Arandú não se surpreendeu. Inclinou a cabeça levemente, como quem registra uma informação sem aceitá-la.

— Essa negativa é sua ou é do visitador?

— É da instituição. É da Ordem, Arandú.

Ribera pôs as mãos sobre os joelhos. Havia uma versão daquela negativa que ele poderia expor em latim protocolar, com argumentos escolásticos sobre sincretismo e salvação, sobre os limites da tolerância pastoral segundo as convenções da Companhia de Jesus. Mas o velho pajé não entenderia essa versão, e Ribera estava demasiado cansado para se esconder atrás dela.

— Desculpe a franqueza, mas as questões da Ordem são um problema seu, padre. Não nosso.

— Nós três, o cabildo, os trabalhadores no campo e as crianças nas casas, as viúvas no cotiguaçu, até o visitador... tudo é a Ordem. Somos todos jesuítas, meu caro.

— Pode até ser, padre... mas se Sebastián morrer, e sabemos que se nada for feito ele irá morrer, as crianças ficarão sem professor. Aquele que enviarem no lugar dele — se e quando enviarem — chegará verde, sem dominar o idioma, sem confiança, desprovido do que esse rapaz já trouxe dentro de si. Você sabe disso. E sabe também que já enterramos quase vinte pessoas, a medicina de Tomás não adiantou para nenhuma delas.

Aquilo era verdade.

— Você tem uma certa razão — disse Ribera, enfim — mas não posso autorizar.

Arandú levantou-se com o vagar dos que já tomaram sua decisão. Ficou de pé por um momento, olhando para Sebastián com uma expressão indefinida – havia ali empatia e também algo mais antigo que a mera empatia, uma espécie de piedade, uma compaixão atávica.

— Quando meu genro foi atingido pelo chifre — disse o velho, sem mudar o tom — minha filha me pediu que usasse a medicina antiga. Pensei em você e cedi aos experimentos de Tomás, mas não vou repetir o erro. Não vou falhar com meu neto, ainda sou o pajé desta aldeia.

— Desta redução.

— Aldeia, redução, missão, comunidade... como queira, padre.

— Não se atreva! — levantou-se Ribera, com o indicador em riste.

Arandú já saía sem olhar para trás.

 

 

Ribera ficou sentado por algum tempo depois que o velho saiu. Vinho, teve vontade de tomar um cálice de vinho. Não aqueles fermentados de uva ordinários que cultivavam ali, mas um bom tinto de sua terra, da planície ao pé da serra da Cantábria. Suspirou. Sebastián havia parado de vez com o latim e dormia agora com uma respiração que parecia mais funda. Levantou-se, ajeitou a coberta do rapaz, apagou uma das velas para poupar o pavio. Foi para seu cubículo e deitou-se sem tirar o hábito. Fechou os olhos.

O teto estava escuro e quieto, e ele ficou olhando para cima como se aquilo fosse um texto que ainda não aprendera a ler. Pensou em Arandú – no peso daquelas últimas palavras, na forma como o velho saíra sem pressa, que era a forma de quem sai para fazer algo, não para omitir-se. Pensou em Tupã Porã, na luz do cotiguaçu que havia notado noites antes, na forma incomum como a moça havia abaixado a cabeça quando Alonso passara por ela, e que agora percebia não ser simples submissão.

Não se atreva, havia dito.

E Arandú saíra porta afora, sem responder, como se suas palavras fossem vento.

Tentou retomar suas orações, mas não conseguia encontrar tom ou motivação. Ficou deitado de costas, os braços ao longo do corpo, ouvindo o povoado respirar na escuridão – o campo longe, o gado, o vento que descia do planalto com o cheiro de terra molhada. Agosto era assim: frio de dia, gelado de noite, e o céu com aquela névoa estranha de quando as estrelas se aproximam mais do que deveriam, talvez orifícios no céu a filtrar uma luz mortal que permeia tudo.

Então, veio o som.

Primeiro, era quase inaudível, depois foi ganhando volume, tornando-se real: vinha de algum ponto do lado sul do pátio, um som ritmado, percussivo, que ele reconheceu não pela memória, mas pela intuição. O mbaraka. E com ele, em contraponto, as vozes.

Não eram muitas. Seis, talvez sete mulheres – ele não teria como calcular sem vê-las. Cantavam em guarani antigo, o guarani que não se falava mais no pátio, mas que se entreouvia nos alojamentos, entre os moradores mais velhos. O idioma que não aparecia nos catecismos que ele havia ajudado a traduzir nem nas missas que os indígenas entoavam com uma afinação que os padres de Asunción achavam miraculosa. Era um guarani anterior à reducción, anterior aos padres e às igrejas e às fundações dos pueblos – anterior, talvez, à própria ideia de que qualquer coisa de pedra grês, barro e cal precisasse ser erguida.

Ribera levantou-se. Foi até a janela.

Do quarto ele não via o cotiguaçu diretamente, mas via o reflexo do fogo sobre o alicerce de pedra da futura torre – uma luz que pulsava com o ritmo do canto, laranja e viva, como se as fundações respirassem. Ficou ali parado, uma das mãos na beira da janela, e percebeu que não sabia há quanto tempo estava parado. O canto tinha essa propriedade: não suspendia o tempo, mas o tornava poroso, de modo que passado e presente conviviam no mesmo compasso sem contradição.

Ele conhecia o suficiente do ritual para intuir o que estava acontecendo. Arandú provavelmente dera o início – mas a voz que conduzia o canto não era a do velho, era uma voz de mulher. Alta, firme, sem ornamentos, a voz de quem não pedia, mas invocava.

Tupã Porã.

Ribera afastou-se da janela. Sentou-se na beira do catre. Ficou com as mãos abertas sobre os joelhos, olhando para o chão de terra batida, e pensou em Alonso – que estava nos campos distantes, dormindo o sono dos que inspecionam. Pensou nos relatórios. Pensou na sua exigência de que nos assentamentos fúnebres só constasse o nome cristão de cada caído, como se a missão conhecesse Kereí por Simão, ou Anahi por Teresa. Pensou na palavra idolatria escrita em latim numa página que alguém leria em Asunción ou em Buenos Aires, sem ter ouvido o que ele estava ouvindo agora, sem ter enterrado tantas crianças, sem ter ficado com o fiat voluntas tua atravessado na garganta como o punhal de um encomendero.

Lá fora, o canto adensou-se. Outras vozes entraram, mais graves, mais fortes, os pais das crianças doentes, ele reconheceu o timbre coletivo de quem ainda tem esperança. O mbaraka acelerou um pouco, não com urgência, mas como um chamado que parecia persegui-lo.

Ele o atendeu. Apressou-se em colocar uma túnica de algodão branco sobre as roupas de baixo, cobrir-se com um chiripá largo e apertar tudo com o cinto. Desceu sem a batina, o sinal de que não estava descendo como padre.

O pátio estava frio e a grama curta faiscava de geada. O fogo era menor do que parecia da janela – uma fogueira baixa, contida, como se as mulheres soubessem que fogo demais chamaria a atenção de quem estava distante. Havia sete esposas e quatro maridos na roda: algumas mães de crianças doentes, reconheceu pelos vultos, e Tupã Porã no centro, com o petyngua na mão esquerda, mbaraka na direita, e Arandú recuado dois passos, sentado no chão com os olhos fechados, presente e ausente como a brasa que ainda aquece sem mais chamejar.

Ribera posicionou-se no lado mais escuro do alicerce da torre. Não entrou no círculo, nem tentou impedir o ritual.

Foi Tupã Porã quem o viu primeiro.

Ela não parou. O chocalho mbaraka continuou no seu pulso ritmado, as contas de semente batendo contra a cabaça seca. Ela o olhou diretamente por dois, três segundos, com a expectativa atendida de quem esperava mesmo que ele comparecesse. Então disse um nome em voz alta, no meio do canto: Sebastián.

Era uma pergunta. Não havia outra forma de entender aquele som.

Ribera assentiu.

Tupã Porã inclinou a cabeça mais uma vez, como quem recebe uma permissão que já sabia que viria, e voltou ao ritual com uma concentração redobrada. Os homens afastaram-se, e as outras mulheres fecharam o círculo um pouco – não para excluir Ribera, mas porque o círculo exigia compenetração, e elas obedeciam ao círculo. O canto mudou de registro: saiu de algo coletivo e entrou em algo mais antigo, mais estreito, mais sagrado.

Che memby, che ra'y — cantava Tupã Porã, e Ribera entendeu, porque o guarani antigo e o guarani da missão partilhavam o osso mesmo quando não partilhavam a carne. Os filhos de sangue, e os filhos de coração. Ela dizia isso três vezes, depois quatro, a voz sem vibrato, seca e precisa como faca de pedra, enquanto levantava o petyngua e aspirava fundo – o tabaco aceso na extremidade brilhava como um sol minúsculo no frio de agosto. Então começou a soprar.

A fumaça saiu em jatos curtos e direcionados, não ao acaso. Sobre a cabeça das mães primeiro, um sopro em cada têmpora, os lábios franzidos numa técnica que Ribera nunca havia visto – o saber de quem aprendeu de outro que aprendeu de outro, o saber partilhado em noites ao redor da fogueira. As crianças que choravam baixinho no frio receberam o sopro no peito, e algumas pararam de chorar instantaneamente, por algo que Ribera não tinha palavra para nomear em nenhum dos idiomas que conhecia. O mbaraka batia em dois tempos de forma compassada, marcando o pulso do ritual como o coração marca o pulso do corpo – sístole e diástole.

Então Tupã Porã virou-se para o alojamento dos padres. Aspirou uma última vez, mais fundo que as anteriores. As brasas do petyngua brilharam alaranjadas. Ela soprou devagar, com uma precisão que parecia conter uma geometria invisível, e a fumaça projetou-se – Ribera viu, ou acreditou ver, ou não havia diferença entre ver e acreditar naquela friagem – ela foi reta, contra o vento, na direção do cubículo onde Sebastián agonizava, mudo. O mbaraka fez silêncio. O canto fez silêncio. As brasas escureceram.

Ribera ficou parado onde estava por mais algum tempo, até o frio fazer-se insuportável. Aí, virou-se e subiu, como que mesmerizado com as coisas que a linguagem jamais alcançava. Encontrou o quarto de Sebastián com a porta entreaberta, e dentro o rapaz dormindo, a respiração um pouco mais funda do que era antes, ou talvez não – talvez fosse Ribera quem estivesse ouvindo diferente.

Sentou-se na cadeira ao lado do catre e esperou. Não foi à janela de novo, mas também não fechou a porta. O canto de homens e mulheres ainda subia do lado sul do pátio, passava pelos andaimes da futura torre, dissolvia-se nas estrelas de agosto. Lá embaixo, bem fundo, as cinzas antigas dormiam sob a pedra grês.

Ribera ficou ali até que a luz rosácea da aurora surgiu. Não soube – nunca saberá – se chegou a dormir.

 

 

Na manhã seguinte, Tomás não disse nada ao examinar os doentes. Anotou as temperaturas com a sua letra miúda e aplicada, fechou o caderno e saiu. Ribera soube que havia alguma melhora – ou que a situação havia parado de piorar – pelo silêncio. Era um silêncio diferente do anterior, menos denso, como se fosse retirado um peso de cima dos ombros.

Sebastián tinha acordado. Pedia água.

Depois de duas manhãs, a melhora era inequívoca, a febre recuando com constância e alguma previsibilidade. Tomás continuava administrando as ervas. Registrava os números. Não fazia perguntas sobre o que havia acontecido na noite de agosto, os sons que certamente também ouviu, e Ribera não lhe oferecia resposta.

Alonso voltou das inspeções na tarde do terceiro dia. Entrou no quarto de Sebastián, ficou de pé ao lado do catre, observou o convalescente com aquela atenção inventariante que reservava para tudo que entendia pertencer à Ordem. Sebastián estava sentado, a cor voltando ao rosto, comendo o caldo que Tomás havia preparado.

— Devemos vivas a São Miguel — vaticinou Alonso, com a convicção que lhe era característica. — O arcanjo foi sempre o protetor deste pueblo.

Mandou celebrar uma missa de ação de graças para o dia seguinte.

 

 

A missa começou cedinho, na área coberta que servia de igreja provisória enquanto a nave definitiva não ficava pronta: quatro paredes de adobe e um teto de madeira de lei que os guaranis haviam levantado com precisão. O sino tocou três vezes. As famílias chegaram com as crianças no colo ou pela mão, os adultos com a roupa de dias importantes.

Alonso responsabilizou-se pela celebração. Ribera ficou ao lado dele com o rosto composto. O visitador via o que seus trinta e tantos anos de Ordem o haviam preparado para ver: o povo reunido, os doentes recuperados, a graça operando sobre aquela comunidade distante como operara sobre todos os que mereceram a misericórdia do Senhor. Via Sebastián de pé junto ao altar, ainda pálido, mas firme, e constatava que a Providência agia em São Miguel como agia em Roma ou em Sevilha, com a mesma precisão e com o mesmo critério.

Já Ribera via Sebastián agitando-se com o culto e pensava no fiat voluntas tua que ficara atravessado na garganta – na distância entre o que os dogmas afirmam e o que a noite deixara entrever, e como aquela distância alargara-se ao longo daquela semana. Via os rostos dos guaranis mais velhos, que cantavam o Kyrie em latim com aquela afinação que os padres de Asunción achavam miraculosa, e pensava que ninguém em Asunción sabia o que aqueles rostos carregavam antes de chegar ao Kyrie. Pensava na fumaça que havia ido reta contra o vento, e na palavra Graça – que em guarani não tinha equivalente exato, que Sebastián havia tentado traduzir para os meninos na escola usando a imagem da chuva que cai sobre plantações e pecadores, que se espalha por entre pomares e santos. Pensava que talvez a Graça fosse exatamente isso: um favor divino que chega sem que se saiba se o agraciado é merecedor ou não.

No meio da missa, os olhos de Tupã Porã e os seus se encontraram.

Ela estava no terceiro banco, Mymba no colo, o menino sentado com os pés para fora como só as crianças sentam. Quando o encontro se deu não houve sinal, nenhum aceno, nenhum gesto. Foi apenas o instante em que dois mundos tão diferentes uniram-se por um átimo, novamente, para logo depois separarem-se, com o embaraço de quem achou no outro a única testemunha possível.

Ribera desviou os olhos. Voltou ao missal. Mymba, que estava observando os gestos mecânicos de Alonso no altar, puxou a manga da mãe e apontou para Sebastián.

— Ele — disse.

— Sim — disse Tupã Porã, em voz baixa. — Ele.

Sob os pés de todos, a dois metros de profundidade, as cinzas antigas descansavam no seu silêncio de sempre – um silêncio que não era morte, ela sabia.

O sino dobrou três vezes para o encerramento. Lá fora, agosto terminava.

 

 

Alonso passou a última noite em São Miguel à mesa do refeitório, com a vela puxada para perto e as costas eretas. Tinha letra firme, sem hesitação, como se a mão já soubesse de antemão o que a cabeça iria ordenar.

Ribera, na extremidade oposta da mesa, ouvia o silêncio que o outro homem fazia.

Não era difícil imaginar o relatório. Conhecia o gênero – havia lido dezenas deles, havia escrito alguns, sabia a arquitetura por dentro: o estado espiritual da reducción, satisfatório; a disciplina dos ofícios, regular; a devoção ao padroeiro, exemplar, como demonstrava a recuperação providencial dos enfermos; recomendava-se maior rigor na separação entre as práticas indígenas remanescentes e a doutrina, pois a misericórdia pastoral não devia ser confundida com negligência. Alonso não mentiria. Alonso jamais mentiria – escreveria apenas o que havia visto, com a precisão de quem sabe que o que não se nomeia deixa de existir para os que leem em Asunción ou Buenos Aires.

Ribera ficou sentado por um tempo com o diário fechado sobre a mesa, a mão espalmada na capa de couro, e mais uma vez resistiu ao impulso de registrar seus pensamentos sobre a pedra arrastada.

Havia percebido, na tarde anterior, ao passar pelo ponto sul do pátio onde Tupã Porã capitaneara o ritual – sem parar, sem demorar demais a vista, com a naturalidade de quem inspeciona o andamento das obras –, que uma das pedras do alicerce incipiente havia sido removida e recolocada. Não no mesmo lugar. Deslocada talvez dois palmos para o interior, o encaixe refeito com argamassa fresca que o sol de agosto havia secado quase completamente. Quem não soubesse o que procurar não encontraria nada. Ele soubera porque conhecia aquelas pedras – havia acompanhado a escavação, havia estado presente quando encontraram as cinzas ancestrais, havia mandado benzer o solo e as retirar.

Alguém havia reaberto um buraco naquele ponto e fechado de volta, selando-o para sempre.

Abriu o seu diário. Ficou com a pena parada por algum tempo, o olhar fixo na página em branco, ouvindo o campo lá fora – o gado, o vento descendo do planalto, a missão respirando no escuro com a regularidade das coisas que não param porque não podem parar.

Escreveu a data. Escreveu que Alonso partiria pela manhã cedo, rumo a São Nicolau. Escreveu que Sebastián havia retomado as aulas e que os meninos haviam chegado antes da hora, o que era um bom sinal. Ficou com a pena suspensa de novo. As cinzas estão novamente no local donde jamais deveriam ter saído, imaginou a frase escrita na linha seguinte, a frase que não poderia estar ali.

Havia uma coisa a registrar sobre o projeto da igreja – uma alteração pequena que proporia ao mestre de obras na semana seguinte, antes que as fundações avançassem além do ponto em que ainda era possível corrigir. O espaço originalmente previsto para uma das capelas laterais ao sul seria mantido como herbolário; o sol entrava melhor pelo lado oposto, e iluminaria com mais eficácia o interior da nave. Era uma questão de luz – apenas de luz.

Escreveu aquilo. Releu. Deixou secar a tinta.

Depois ficou mais um tempo com a pena na mão, sem saber se havia mais a dizer ou se o que restava pertenceria à categoria das coisas que a linguagem não alcança – e que por isso mesmo talvez só existam com mais inteireza no silêncio. Pensou em Tupã Porã na missa, com Mymba no colo. Pensou em Arandú saindo porta afora sem olhar para trás. Pensou no fiat voluntas tua que havia parado na garganta e escreveu ainda um último parágrafo, de chofre. Foi o mais fácil.

Esta catedral será construída sobre cinzas antigas. Ignoro ainda se a Graça de Deus chegou aqui antes de nós, ou se simplesmente encontrou o caminho que devotos ancestrais já haviam aberto.

Fechou o diário.

Do outro lado da mesa, a vela de Alonso ainda ardia.

 

 

Construindo a História

Os fatos por trás da ficção

A inspiração para a escolha do tema proveio de uma visita à região das Missões, em maio de 2026, por ocasião do aniversário dos 400 anos da chegada dos jesuítas à margem oriental do Uruguai, hoje território gaúcho. Entre as ruínas de São Miguel, surgiu a pergunta que deu origem a esta narrativa: como terá sido possível, afinal, que um punhado de padres europeus – sem intérpretes, sem dicionários, sem qualquer mapa linguístico do território – tenha conseguido não apenas aprender o guarani, mas reduzi-lo à escrita, sistematizá-lo em gramáticas e dicionários, empregando-o de uma forma nova como língua oficial das reduções?

O elemento que permitiu a transição do mundo ágrafo para o letrado foi a atividade intelectual incessante do Padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário entre os guaranis do Guairá e do Paraguai entre 1612 e 1638. Ao longo desses anos, Montoya alcançou proficiência plena, falada e escrita, na língua nativa, e produziu um conjunto monumental de obras: o Tesoro de la Lengua Guaraní (1639), o Vocabulario de la Lengua Guaraní (1640), a Arte de la Lengua Guaraní (1640) e o Catecismo de la Lengua Guaraní (1640). A redução gramatical do idioma nativo, e sua consequente dicionarização, potencializou a transição de um regime de registro baseado exclusivamente na oralidade para outro, calcado na escrita.

O paradoxo tornou-se agudo. Com Montoya, os jesuítas haviam aprendido o guarani para penetrar na cultura indígena. Mas, ao sistematizá-lo em gramáticas e estabilizá-lo nos livros da catequese, produziam uma versão escrita e normalizada da língua que divergia inevitavelmente do idioma vivo, falado, o guarani espiritualmente carregado dos aldeamentos que precederam os pueblos.

Na cosmogonia antiga, pajés eram definidos precisamente pela qualidade de sua fala: em guarani, um dos nomes da alma é ñe'eng, que também significa fala – e o pajé é aquele que emite ñe'eng porã, as belas palavras, falando com o coração, sendo fala e alma aí uma coisa composta, única. O pajé de nossa narrativa, Arandú, vinha preferindo o silêncio. O que isso nos diz sobre a natureza do encontro entre missionários e catequizados?

Os europeus basearam-se na natureza aglutinante dos fonemas para formular termos a partir de sons nativos – um processo que frequentemente levava à criação de termos altamente sintéticos para transmitir conceitos teológicos. Palavras para “sacramento”, “pecado original”, “ressurreição”, algo que os indígenas jamais precisaram nomear.

A questão que me perseguiu ao longo da escrita deste conto foi exatamente esta: o que acontece com as tradições espirituais – todas transmitidas no sopro de uma voz reconhecida pelo ouvinte – quando o idioma em que elas existem transmuta-se para uma forma escrita produzida por outros, para outras finalidades? Porque a escrita jesuítica do guarani jamais esteve neutra, foi construída para encaixar a cosmogonia católica em fonemas ameríndios. E aí surge uma questão que apenas a literatura pode apresentar ao mundo: o que sentiu o pajé – herdeiro de uma tradição oral multissecular, guardião de saberes que só existiam porque eram falados e ouvidos dentro de contextos rituais específicos – ao ver sua língua aprisionada em papel e tinta por mãos que nunca haviam dançado o jeroky nem soprado o petỹ sagrado?

Esta narrativa é uma tentativa de imaginar esses sentimentos – não a partir de Alonso, que deixou os documentos hoje pesquisados em arquivos europeus, mas a partir de Tupã Porã, Arandú e o próprio Padre Ribera, que talvez tenha visto no Rio Uruguai uma terceira margem: aquela que distingue o que a catequese pode nomear e o que a espiritualidade dos povos originários sempre reconheceu como infenso à pretensão universalizante da cultura ibérica.

 


[1] Conto redigido a partir da participação do autor como painelista no curso de formação “Missões jesuíticas guaranis: história, cultura e legado”, promovido pela Escola de Magistrados e Servidores (EMAGIS) do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) e pelo Sistema de Conciliação da 4ª Região (SISTCON) em São Miguel das Missões/RS no dia 25.05.2026, em referência aos 400 anos do início das reduções jesuíticas guaranis no atual Rio Grande do Sul em 1626.

[2] NEUMANN, Eduardo. Letra de índios: cultura escrita, comunicação e memória indígena nas reduções do Paraguai. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2015. p. 45.

 


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