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Eva Sopher fala sobre nazismo, cultura e sua paixão pelo Theatro São Pedro

05/08/2004 - 20h40
Atualizada em 05/08/2004 - 20h40
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A diretora da Fundação Theatro São Pedro, Eva Sopher, foi a convidada do projeto Dialogando para Promover a Cultura, do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, na edição de hoje (5/8). Considerada uma das primeiras empreendedoras culturais do país, ela não apenas reabriu o Theatro São Pedro, um dos maiores patrimônios culturais de Porto Alegre, como se dedica atualmente às obras do Multipalco, que poderá se tornar o maior complexo cultural da América Latina. Essa oitava edição do evento, intitulada "O Espetáculo já começou", teve como mediador o desembargador federal Celso Kipper e foi aberta pela vice-presidente do TRF, desembargadora federal Marga Inge Barth Tessler. A trajetória pessoal No início da encontro, Eva relatou momentos marcantes de sua trajetória pessoal, que são testemunhos vivos da História. Nascida numa família judaica em Frankfurt, na Alemanha, Eva teve a infância despreocupada interrompida pela ascensão do nazismo. O primeiro choque foi aos dez anos de idade, em 1933, quando a irmã chegou em casa aos prantos, pois uma colega se recusara a sentar ao seu lado por ela ser uma israelita. Em 1937, a família emigrou para a cidade de São Paulo, fugindo da perseguição contra o povo judeu empreendida pelo regime de Adolf Hitler. Na ocasião, Eva já estava fortemente ligada à arte. No país natal, a jovem havia tido contato com as artes plásticas. Em terras brasileiras, seu primeiro emprego foi na Casa Jardim, uma loja de artesanato e galeria de arte. O dono do estabelecimento era fundador da Proarte, entidade sem fins lucrativos patrocinadora de atividades culturais. Foi enquanto morava no Rio de Janeiro que Eva conheceu Wolfgang Klaus Sopher, que veio a se tornar seu marido e companheiro na luta pelo desenvolvimento cultural do país. Em 1960, Wolfgang foi convidado a trabalhar em Porto Alegre, e a família mudou-se para a capital gaúcha. Eva Sopher, Porto Alegre e o São Pedro Assim que veio morar em Porto Alegre, Eva perguntou a um amigo como era a vida cultural da cidade. A resposta foi: "É melhor você começar logo". E ela começou. Poucos meses depois, reativou o Proarte na cidade com a realização de um concerto de um grupo alemão. Por coincidência, esse evento foi justamente no local que viria a ser a segunda casa e grande paixão de Eva: o Theatro São Pedro, inaugurado em 1858. Muitos concertos se seguiram. Foi Eva Sopher quem trouxe os Meninos Cantores de Viena para Porta Alegre pela primeira vez, para um recital no Salão de Atos de Ufrgs. "As cadeiras não estavam numeradas. Eu colei os números um por um e temia vender uma mesma fileira mais de uma vez", recorda. Fechar o Theatro São Pedro foi doloroso, mas era inevitável. A decisão foi tomada no começo da década de 70, após pedaços do reboco do teto caírem durante duas apresentações, colocando em risco artistas e platéia. Em 1975, Eva recebeu do Governo do Estado a incumbência de reabrir a tradicional casa de espetáculos. Em 27 de junho de 1984, no 126º aniversário da casa de espetáculos, o Theatro São Pedro abria suas portas novamente. A reinauguração deveria ocorrer no dia 29 do mesmo mês, dedicado ao santo que dá nome ao teatro, mas a data foi alterada a pedido do então presidente, João Figueiredo. Ele não compareceu ao evento e, na manhã seguinte, Luis Fernando Verissimo escreveria em sua coluna: "Presidente não sabe o que perdeu". A 'dona-de-casa' do teatro Desde então, espetáculos de renome regional, nacional e internacional brilham em Porto Alegre. Todos os artistas elogiam a organização e a conservação das instalações. E Eva revela o segredo de tanta eficiência: "Eu me apresento como a dona-de-casa do Theatro São Pedro. E uma boa dona-de-casa tem o seu lar limpo, arrumado. É o mínimo, todos os teatros deveriam ser assim", diz ela. Durante a conversa com os funcionários do tribunal, Eva não se privou de demonstrar suas fortes opiniões. "Os dirigentes dos espaços culturais da cidade não deveriam ser mudados quando trocam os governos, por motivos partidários. Deveriam ser mudados apenas quando falhassem na missão de manterem suas casas funcionando", declarou. Eva Sopher dedica agora todas as suas energias à execução do projeto Multipalco. O complexo, que está com as obras adiantadas, contará com um palco italiano, um palco oficina (caracterizado por utensílios totalmente movéis), uma concha acústica com capacidade para mais de 700 pessoas e diversas salas para cursos e pequenas apresentações. As doações de pessoas físicas já ultrapassam os R$ 200 mil. Os valores doados podem ser 100% abatidos do Imposto de Renda devido. Informações sobre como contribuir com o projeto podem ser obtidas através da página www.multipalco.com.br ou do telefone (51) 3227-0275, ou ainda na Associação de Amigos do Theatro São Pedro. A cultura e a Justiça O teatro de Eva Sopher e a Justiça Federal (JF) têm uma ligação em seu passado. Nos primeiros tempos da fase inicial da JF brasileira, criada em 1890, o Juízo Federal da Secção do Estado do Rio Grande do Sul funcionou na sede da Câmara Municipal de Porto Alegre, na Praça da Matriz, prédio idêntico ao vizinho Theatro São Pedro, com o qual formava um conjunto arquitetônico. O edifício da Câmara foi destruído por um incêndio em 1949 e deu lugar ao Tribunal de Justiça do RS. O projeto "Dialogando para Promover a Cultura" é organizado pela Divisão de Seleção, Acompanhamento e Desenvolvimento (Disad) da Diretoria de Recursos Humanos do TRF, com promoção da Presidência do tribunal.